Para aquela que sente o mundo um pouco mais profundamente.

Após passar anos, talvez décadas tentando entender por que você nunca pareceu se encaixar direito, chega um momento em que percebe que talvez apenas funcione diferente. Você sente demais. O mundo que as pessoas narram parece, muitas vezes, completamente diferente daquele que você enxerga. Há mais cores, mais nuances, mais brilho, mas também mais sombras.
Os sentimentos são avassaladores. Você ama com todo o seu ser, sente tudo profundamente e talvez nunca tenha aprendido a fazer nada pela metade. Absolutamente tudo pode se transformar em poesia: a lua brilhando numa noite sem nuvens, o sol aquecendo a pele em um dia bonito, as flores crescendo e desabrochando em um vasinho no quintal, o canto dos pássaros numa manhã tranquila. Para você, tudo carrega alguma coisa. Tudo é romance, tudo é intensidade, tudo parece um pouco maior.
E talvez seja justamente por isso que você também sofra tanto. A mesma sensibilidade que permite enxergar beleza onde outros talvez nem parem para olhar faz com que a dor chegue mais fundo. Você não sente apenas o que aconteceu; sente o que aquilo significou. Uma palavra pode permanecer durante anos, uma música pode carregar uma lembrança inteira, uma ausência pode ocupar espaços que ninguém mais consegue enxergar.
Talvez essa seja uma das inteligências mais silenciosas da melancolia: perceber aquilo que existe entre as coisas. Observar, guardar, questionar, encontrar significado onde parece não haver nenhum. Você não olha apenas para uma flor; pensa no tempo que levou para florescer. Não escuta apenas uma música; sente tudo aquilo que ela desperta. Não vive apenas um momento; guarda a atmosfera dele.
Durante muito tempo, talvez você tenha pensado que precisava sentir menos para sofrer menos. Mas talvez não precise se tornar menos sensível. Talvez precise apenas aprender a não se abandonar quando sentir demais.
Porque existe uma beleza imensa em continuar delicada depois de conhecer as sombras. Em continuar acreditando no amor depois de descobrir que ele também pode doer. Em ainda conseguir se encantar com uma noite de chuva, uma flor, uma música, um livro ou uma xícara de café depois de tudo aquilo que a vida já ensinou.
Então, mulher melancólica, não tenha tanta pressa de se corrigir.
Talvez você nunca tenha sido feita para enxergar o mundo como todo mundo.
Talvez tenha sido feita para enxergá-lo assim.
Com mais cores, mais nuances, mais poesia.
E talvez isso não seja um defeito.
Talvez seja simplesmente uma das formas mais bonitas de estar viva.
